Meu Filho Treina, Se Dedica, Mas o Time Só Perde: O Que Fazer?
Uma mãe contou, numa comunidade de pais de atletas, uma coisa que muita gente sente e quase ninguém diz em voz alta. O filho, de uns 10 anos, joga no Sub-11 de um clube pequeno. Não falta a treino. Cuida da alimentação. Faz tudo o que um pai ou mãe pediria. E o time está em último lugar em dois campeonatos seguidos, sem vitória.
Aí começaram as frases: "Não adianta!", "Quero sair do time!", "O time não ajuda!"
E ela fez a pergunta que está no coração deste artigo: "Até onde eu devo insistir para ele cumprir o compromisso, e quando devo respeitar a vontade dele de sair?"
Ela mesma admitiu, com uma risada meio chorosa, que estava ficando sem argumentos. Confesso que li isso com um aperto no peito, porque quem tem filho no esporte sabe: a derrota dói em dois lugares ao mesmo tempo, no campo e na arquibancada.
Vou tentar responder do jeito que eu responderia a um amigo: sem fórmula pronta, mas com algumas ideias que ajudam.
Primeiro: o que você está sentindo é normal (e merece ser dito)
Antes de qualquer conselho, uma coisa: você também está triste, e tudo bem.
Ver um filho se esforçar tanto e perder, perder, perder, mexe com a gente. E é comum acontecer o que essa mãe descreveu: a gente começa a evitar o assunto porque não sabe mais o que dizer. O silêncio vira um acordo estranho dentro do carro, na volta pra casa.
Só que criança percebe o silêncio. E muitas vezes interpreta como "a mamãe também desistiu". Não precisa ter resposta pronta. Às vezes basta dizer: "Eu também tô chateado com esses resultados. Quer conversar ou prefere ficar quieto um pouco?" Isso já é muito.
O erro mais comum: a gente fala de esforço, e a criança vive de resultado
Reparem no que essa mãe fez, e é o que quase todos nós fazemos: "Treina mais, foca mais, continua se dedicando."
Só que ele fez tudo isso. O treino veio, o comprometimento veio, e o placar continuou o mesmo. Então o conselho começa a soar vazio, porque a criança está cumprindo a receita e o bolo não cresce.
O problema é que, para uma criança de 10 anos, o jogo é simples: ganhei ou perdi? A noção de que o futebol é coletivo, de que o time tem problemas, de que o resultado nem sempre reflete o esforço individual, isso a gente entende, mas ela ainda está aprendendo.
Por isso, em vez de repetir "dedique-se", vale mudar o que a gente chama de vitória junto com ele:
- "Hoje, quantas vezes você tentou o passe difícil em vez do fácil?"
- "Qual foi a jogada que você mais gostou de fazer?"
- "O que você fez hoje que no começo do ano você não fazia?"
Não é consolo barato. É ensinar a olhar para o que depende dele, de um jeito concreto, que ele consegue enxergar. Aliás, a própria mãe já tentava isso, e está certa. O que falta é transformar em algo visível, pequeno e comemorável.
Sobre o papel dos pais diante do placar, vale ler também: derrota, preparo técnico e o papel dos pais no futebol de base.
Desistir de uma dificuldade é diferente de sair de um lugar que faz mal
Essa foi a dúvida que mais pesou no relato: "Se eu disser 'pode sair', será que estou ensinando que a gente larga tudo quando fica difícil?"
É uma preocupação bonita, de quem quer formar caráter. Mas existe uma distinção que ajuda muito:
Desistir de uma dificuldade: a criança está enfrentando um obstáculo que ela pode superar com tempo e apoio. Perder, aprender, tentar de novo. Isso vale a pena atravessar.
Sair de um ambiente que não está fazendo bem: o problema não é "o esporte é difícil", e sim que a criança deixou de ter prazer, de aprender ou de se sentir bem ali.
A pergunta que separa uma coisa da outra não é "ele quer sair?". É esta:
Ele está desanimado com as derrotas, ou desanimado com o ambiente?
Faz diferença. Tem criança que perde todo fim de semana e continua feliz, porque adora os amigos, o treino e a bola. E tem criança que ganha e está infeliz, porque tem medo do técnico ou se sente pressionada. Quem sai de uma situação dessas não está "desistindo". Está se protegendo.
Cinco perguntas para fazer (sem pressa, de preferência fora do dia do jogo)
Evite essa conversa no caminho de volta do campo, com o placar ainda quente. Escolha um momento calmo, talvez fazendo outra coisa juntos, e experimente:
- "O que você mais gosta nos treinos?", para saber se o amor pelo futebol continua lá.
- "O que está mais chato nos jogos?", porque o desânimo pode vir do resultado, do técnico ou dos colegas, e a resposta pode te surpreender.
- "Se a gente ganhasse todos os jogos, você estaria feliz?", para descobrir se o problema é a derrota ou outra coisa.
- "Você se sente bem com o técnico e com os colegas?", porque às vezes a tristeza esconde um incômodo que a criança não sabe nomear.
- "O que você gostaria que fosse diferente?", porque ouvir a opinião dele já mostra que a decisão não é só de adulto.
Depois, só ouça. Sem consertar, sem argumentar. Quando a criança sente que pode falar sem ser contestada, muita coisa se resolve sozinha.
Um caminho do meio: terminar a temporada, com a porta aberta
A mãe disse algo muito sincero: "Sinto que ele vai mais por insistência minha do que por vontade própria."
Esse é o sinal de alerta mais importante do texto. Quando o esforço de manter a criança no time é maior do que o dela, vale parar e rever.
Uma solução que costuma funcionar é combinar um compromisso com prazo e com saída honrosa:
- "Vamos até o fim do campeonato, porque você assumiu um compromisso com os colegas. Depois, a gente conversa e decide juntos se continua aqui, se muda de time ou se faz uma pausa."
Dessa forma você ensina duas lições ao mesmo tempo: compromisso (a gente não abandona o grupo no meio do caminho) e respeito (a vontade dele conta e existe uma saída). Ele deixa de sentir que está preso, e esse alívio, por si só, muitas vezes devolve parte da energia.
E atenção: sair de um clube não é sair do esporte. Se o ambiente é o problema, um time mais estruturado, uma escolinha mais leve ou até um tempo só jogando com os amigos pode devolver a alegria que o placar tirou.
E o clube? Uma observação sem apontar o dedo
A mãe deixou claro que o foco dela não era criticar o clube, e eu respeito. Mas vale uma reflexão para todo pai:
Em categorias como o Sub-11, o objetivo principal é aprender e se divertir, e não vencer campeonato. Então a pergunta importante é: mesmo perdendo, meu filho está aprendendo? O ambiente é saudável? Os técnicos orientam ou só cobram?
Se a resposta for sim, a derrota é um pedaço da formação. Se a resposta for não, talvez o problema não seja o placar, e sim o lugar. Sobre esse ponto, vale conhecer o que fala o nosso artigo técnicos que gritam e xingam: não é motivação, é medo.
Se quiser um olhar mais organizado sobre isso, o guia de análise SWOT para atletas de base ajuda a separar o que é do atleta, o que é do time e o que é do ambiente.
Registrar a evolução também protege o ânimo
Uma coisa que ajuda quando o placar está feio é ter um lugar onde a evolução dele fique registrada, independentemente do resultado do time. Um jogo perdido por 5 a 0 pode ter sido o jogo em que ele fez a melhor jogada da temporada, e isso não deveria se perder.
Quando a criança olha para trás e vê o caminho percorrido (o que aprendeu, onde jogou, quanto evoluiu), o foco sai do "perdemos de novo" e vai para o "olha o quanto eu cresci". Também escrevemos sobre isso em como montar o currículo esportivo do atleta.
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Se você, pai ou mãe, se reconheceu nessa história, saiba que não está sozinho. Ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe de atleta, a gente aprende no meio do caminho, errando um pouco, acertando outro tanto.
O mais importante nem é decidir "ficar" ou "sair". É que, seja qual for a decisão, seu filho saiba que você está do lado dele, e que o amor que você tem por ele não depende de placar. Isso, nenhuma sequência de derrotas tira.
Se quiser conversar com outros pais que passam por isso, a nossa comunidade no WhatsApp está de portas abertas: 💬 Comunidade Pais de Atleta.
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Meu filho se dedica, mas o time só perde. É normal ele ficar desanimado?
Sim, é muito comum. Crianças dessa idade vivem o jogo pelo resultado, então uma sequência longa de derrotas pesa, mesmo quando elas se esforçam. O importante é ajudá-las a enxergar o que dependeu delas e o que evoluiu, para que o placar não seja a única régua.
Devo obrigar meu filho a continuar até o fim da temporada?
Depende do motivo do desânimo. Se é frustração com as derrotas, combinar de terminar a temporada com uma saída honrosa costuma ser um bom meio-termo. Se o ambiente está fazendo mal (medo do técnico, pressão excessiva), vale ouvir com mais atenção e considerar a mudança.
Deixar meu filho sair do time ensina a desistir fácil?
Não necessariamente. Existe diferença entre desistir de uma dificuldade que dá para superar e sair de um lugar que deixou de fazer bem. O que ensina é a forma como a decisão é tomada: conversando, respeitando o compromisso e escolhendo junto o próximo passo.
Como conversar com meu filho depois de uma derrota?
Espere a emoção baixar, evite cobrar ou analisar o jogo no caminho de volta e comece pelo que ele sentiu, não pelo que errou. Perguntas como "o que você mais gostou hoje?" funcionam melhor do que "por que vocês perderam?".
Mudar de clube resolve?
Pode resolver quando o problema é o ambiente, a estrutura ou o momento do time. Mas vale entender antes o que realmente incomoda a criança, para que a troca não leve o mesmo problema para outro lugar.