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Futebol de Base

Técnicos Que Gritam e Xingam: Isso Não É Motivação, É Medo

Publicado em 23 de agosto de 2026 · 9 min de leitura
Técnico de costas gritando com os braços erguidos durante um jogo de futebol infantil

Vou ser direto nesse artigo, porque esse é um assunto em que eu tenho opinião formada, sem meio-termo: técnico que grita e xinga criança achando que está motivando, não está motivando nada. Está assustando. E eu vivi isso de perto, com meu próprio filho, então não estou falando de teoria.

A cena que eu vivi

Teve uma fase em que meu filho começou a ficar com medo de ir jogar. Não era preguiça, não era falta de vontade — era medo mesmo. Medo de errar, medo de levar bronca, e, sendo bem direto, medo do próprio técnico. Um homem adulto reclamando e xingando na lateral do campo toda vez que uma jogada não dava certo — o palavrão não saía dirigido a nenhuma criança específica, mas vinha solto no ar, com cara feia e gesto brusco, tentando "motivar" times de crianças de 8 anos. E o efeito que isso gera não é motivação nenhuma, é medo disfarçado de "cobrança".

E aqui vale um ponto importante: eu duvido muito que o medo tenha sido só do meu filho. Aquele clima pesado, criado por um adulto perdendo a compostura, dificilmente assusta uma criança e deixa as outras dezenove intactas. Estamos falando de meninos de 8 anos — muitos deles ainda nem sabem amarrar a própria chuteira sozinhos, quanto mais processar gesto brusco e palavrão vindo de um adulto que deveria estar ali pra ensinar, não pra assustar.

Eu precisei sentar com ele e explicar que, mesmo o técnico se comportando daquele jeito, ninguém ali ia fazer mal a ele, e que eu estaria lá, de olho, o tempo todo. Nenhuma criança de 8 anos deveria precisar de uma conversa dessas antes de ir treinar o esporte que ela ama.

A conversa que eu tive com o técnico

Depois disso, procurei o técnico e fui direto: expliquei que aquelas eram crianças de 8 anos, que muitas ainda se assustam com gesto brusco, com expressão grosseira, com palavrão solto do lado do campo — mesmo quando não é dirigido diretamente a elas, o clima pesado assusta do mesmo jeito. Falei que, em casa, a gente simplesmente não fala palavrão, e muito menos permite que nossos filhos falem — pra mim, isso é falta de educação e desrespeito, e ainda abre uma porta perigosa pra discussão e briga entre torcidas, já que clima de agressividade puxa mais agressividade. (O futebol, de um modo geral, é um ambiente cheio de palavrão — o que, na minha opinião, também não deveria ser assim, mas isso é assunto pra outro artigo.)

Ele ouviu, concordou, pediu desculpas, e tentou justificar dizendo que foi a emoção do momento — mas garantiu que não ia se repetir. Reconheço o gesto de ouvir e se corrigir. Mas o fato de ter acontecido, com uma criança de 8 anos, já diz muito sobre o quanto esse tipo de comportamento ainda é tolerado — ou até naturalizado — no futebol de base.

Será que esses profissionais têm algum preparo pra isso?

Essa pergunta me incomoda há um tempo, então fui atrás de uma resposta mais concreta. E o que encontrei é revelador: existe, sim, um caminho oficial de formação — a CBF tem um sistema de licenças (C, B, A e PRO) pra treinadores, e a Licença C, voltada justamente pra quem trabalha com escolinhas de formação e categorias iniciais (até Sub-11), inclui conteúdo de pedagogia, psicologia e ética no esporte. A Licença B, voltada pras categorias de base dos clubes (Sub-12 ao Sub-17), vai além e tem um módulo específico chamado "Psicologia do Esporte Aplicada às Categorias de Base".

Ou seja: o conteúdo existe, e é levado a sério em quem passa por ele — um treinador formado pela Licença C, entrevistado recentemente, resumiu bem o espírito do curso: "não se trata só de ensinar a chutar a bola, mas de formar seres humanos dentro de campo."

Só que aqui está o problema real: esse tipo de capacitação não é, na prática, uma exigência pra abrir uma escolinha de bairro ou montar um time informal — que é justamente a realidade da maioria das famílias, inclusive a minha. A Licença C tem custo, carga horária de mais de 200 horas, e pré-requisitos. Muito professor e técnico que lida com criança pequena no dia a dia nunca passou perto de um conteúdo formal de psicologia infantil — está ali por saber jogar bola, ou por ter boa vontade, sem nenhuma preparação real pra lidar com a cabeça de uma criança de 8 anos.

Isso não é desculpa pro comportamento — é diagnóstico do problema. Enquanto a exigência de preparo emocional continuar sendo opcional (e cara) pra quem treina as categorias mais iniciais, vamos continuar vendo cenas como a que eu vivi — e outras bem piores.

Um vídeo que eu vi, e que não consigo esquecer

Pra você entender que o que eu vivi com meu filho está longe de ser o pior cenário possível, deixa eu te contar sobre um vídeo que vi recentemente. Nele, um técnico gritava com um grupo de adolescentes sentados no gramado — já era desrespeitoso por si só. Mas, em determinado momento, ele se virou pra um jogador específico, foi chegando perto, cada vez mais perto, até ficar praticamente colado no rosto do garoto, gritando palavrão direto no ouvido dele.

Isso não é técnica motivacional. Pra mim, isso é violência — um tipo de assédio psicológico pesado, travestido de "cobrança esportiva". Nenhuma explicação de "é assim que se prepara campeão" justifica um adulto invadindo o espaço físico e emocional de um adolescente daquele jeito. Se fosse feito por um adulto qualquer, fora do contexto do esporte, ninguém teria dúvida de chamar aquilo pelo nome certo. Dentro de campo, por algum motivo, muita gente ainda hesita.

Quando até o árbitro não aguenta mais

Tem um terceiro exemplo que eu presenciei, e que ilustra bem o tamanho do problema. Foi durante um campeonato em que meu filho participava: um técnico estava tão desrespeitoso com as próprias crianças do time dele — gritando, xingando, sem nenhum controle — que o árbitro da partida resolveu expulsá-lo de campo, deixando o auxiliar técnico assumir a condução do time pro resto do jogo.

O árbitro ainda comentou, informalmente, algo como: "como será que os pais deixam os filhos sob o comando de um cara desses?" O técnico, é claro, saiu contrariado — xingando o próprio árbitro no caminho pro vestiário.

Pensa na cena: um profissional de arbitragem, que normalmente está ali só pra aplicar regra de jogo, sentiu necessidade de intervir por causa do comportamento de um adulto com as próprias crianças. Quando até quem está de fora do vínculo com aquelas crianças percebe que passou do limite, é sinal de que o problema é grande demais pra continuar sendo tratado como "estilo de liderança".

Por que isso não é motivação — é medo

Existe uma confusão perigosa nesse meio: muito técnico acha que gritar, xingar e criar um clima de tensão vai "endurecer" a criança, prepará-la pra pressão do futebol grande. Na minha opinião, isso é exatamente o oposto do que forma um atleta de verdade. Já falamos, em outro artigo, sobre o preparo que técnicos e pais precisam ter pra lidar com a derrota — gritar e xingar não é preparo, é a ausência completa dele.

Criança que treina com medo não aprende mais rápido. Ela aprende a ter medo. E medo, dentro de campo, trava o corpo, trava a decisão, trava justamente a evolução técnica que aquele grito, teoricamente, estava tentando forçar. É o oposto do que já discutimos sobre pressão psicológica no futebol de base — pressão bem administrada forma; pressão através de grito e xingamento, destrói.

O que fazer se isso acontecer com seu filho

Se você reconhece essa cena no time do seu filho, aqui vai o que eu recomendo, porque foi exatamente o que eu fiz:

  • Converse com seu filho primeiro. Garanta a ele que está seguro, que você está por perto, e que o comportamento do adulto não reflete o valor dele como atleta ou como pessoa.
  • Procure o técnico diretamente, com respeito, mas sem rodeio. Diga claramente o que você observou e por que isso te incomoda. Um profissional de verdade vai ouvir, refletir e se ajustar — como aconteceu no meu caso.
  • Observe se o comportamento se repete. Um deslize pontual, reconhecido e corrigido, é diferente de um padrão constante.
  • Esteja disposto a mudar de ambiente, se for necessário. Nenhuma oportunidade esportiva vale mais que a segurança emocional do seu filho — isso vale a pena repetir sempre.

Isso não deveria ser normalizado

Eu sei que "é assim mesmo, faz parte do futebol" é uma frase que muita gente usa pra justificar esse tipo de comportamento. Eu discordo completamente. Categoria de base é lugar de formação — técnica, emocional, de caráter. Um adulto reclamando e xingando na lateral, mesmo sem mirar diretamente numa criança de 8 anos, cria um clima de medo — e medo não tem lugar nenhum na infância de um atleta.

Registre também o ambiente, não só o resultado

No Carreira ID, dá pra ir além dos números: você pode registrar os detalhes de cada jogo, os bastidores, o que aconteceu, os acertos e as falhas da equipe como um todo — não só do seu filho. Muitas vezes, uma derrota tem mais a ver com o despreparo de quem deveria estar preparando os atletas do que com qualquer coisa que a criança fez errado, e ter esse contexto registrado ajuda a enxergar isso com clareza, meses ou anos depois.

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Perguntas frequentes

É normal um técnico levantar a voz durante um treino ou jogo?

Levantar a voz pontualmente pra dar uma instrução em meio ao barulho do jogo é diferente de gritar e xingar tentando intimidar ou "motivar" pelo medo. A diferença está na intenção e no efeito sobre a criança, não só no volume.

Técnicos de futebol de base são obrigados a ter alguma capacitação em psicologia infantil?

Existe um caminho formal — as licenças da CBF (C, B, A, PRO) incluem conteúdo de psicologia esportiva, principalmente nas licenças C e B, voltadas pras categorias de formação. Mas essa capacitação não é exigida de quem monta uma escolinha informal ou um time de bairro, o que deixa uma lacuna real na maioria dos ambientes que as famílias frequentam no dia a dia.

Como conversar com um técnico sem parecer que estou atacando o trabalho dele?

Vá direto ao ponto, com respeito, focando no efeito observado na criança — "meu filho ficou com medo depois disso" — em vez de generalizar ou atacar o caráter da pessoa. Isso abre espaço pra reflexão, não pra defesa.

E se o técnico não mudar o comportamento depois da conversa?

Se o padrão se repetir mesmo após uma conversa direta, vale considerar mudar de ambiente. Nenhum resultado esportivo justifica manter uma criança num ambiente que gera medo constante.

Meu filho não quer mais treinar por causa de um técnico assim — o que eu faço?

Vale reler nosso artigo sobre o que fazer quando o filho quer desistir — nesses casos, o problema geralmente não é o esporte em si, é o ambiente específico, e a solução pode ser trocar de lugar, não desistir de vez.

Pra fechar

Eu sei que esse artigo saiu mais opinativo do que a maioria dos textos daqui do blog — e é proposital. Esse é um tema em que eu não vejo espaço pra meio-termo: criança de base tem direito a treinar sem medo. Gritar e xingar não forma atleta forte, forma criança assustada. E se isso acontecer com o seu filho, saiba que você tem todo o direito — e a responsabilidade — de agir, do jeito que eu agi.

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