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Futebol de Base

"Mãe, Eu Sou Ruim?": O Que Uma Fala Pode Fazer com uma Criança

Publicado em 23 de agosto de 2026 · 7 min de leitura
Menino de uniforme de basquete caminhando cabisbaixo em quadra, segurando a bola, com o técnico ao lado observando com prancheta

Uma mãe compartilhou, recentemente, um relato num grupo de pais de atletas que eu não consigo tirar da cabeça. Vou contar a história aqui — sem nomes, sem detalhes que identifiquem ninguém — porque acho que ela carrega uma lição importante demais pra ficar só naquele grupo.

A história

O filho dela, um adolescente que joga basquete há cerca de dois anos, tinha sido convocado pra representar seu time numa competição nacional de base — de 17 atletas do grupo, só 12 foram chamados, e ele era um deles. Categoria Sub-15, primeira grande oportunidade desse tamanho. Ele estava radiante de expectativa.

No dia seguinte a um dos jogos, a mãe percebeu, na arquibancada, que o olhar do filho estava diferente. Ele se aproximou dela e perguntou: "mãe, eu sou ruim?"

O motivo: segundo o relato dela, o técnico havia dito a ele, essencialmente, que ele não era bom o suficiente — e completou dizendo que o erro não tinha sido do garoto, e sim do próprio técnico, por tê-lo escolhido pro time entre tantos outros atletas disponíveis.

Pensa no peso disso. Não foi só "você precisa melhorar". Foi uma frase que, na prática, disse a uma criança: você é um erro que eu cometi.

Por que essa frase específica é tão destrutiva

Existe uma diferença enorme entre corrigir uma performance e atacar o valor de alguém como pessoa. "Você precisa melhorar seu posicionamento" é feedback técnico. "Eu errei ao escolher você" é outra coisa completamente diferente — é dizer que a presença dele ali, a conquista de ter sido um dos 12 escolhidos entre 17, não tinha valor nenhum. Numa única frase, o adulto responsável por aquele time apagou o que deveria ter sido um dos momentos mais orgulhosos da vida esportiva daquele garoto.

Já falamos, em outro artigo, sobre técnicos que gritam e xingam achando que isso motiva — isso aqui é ainda mais silencioso e, de certa forma, mais perigoso: não foi um grito de raiva no calor do jogo, foi uma frase dita com aparente calma, o que faz ela parecer ainda mais "verdadeira" pra quem escuta.

O que a mãe fez certo — e vale muito a pena aprender com isso

Aqui está a parte que eu mais quero destacar, porque o instinto dela, sob dor, foi exemplar. Na frente do filho, ela não desabou, nem atacou o técnico — acolheu, reforçou o valor dele como pessoa, e relembrou a trajetória real que ele já tinha construído em apenas dois anos de esporte. Só depois, sozinha, ela chorou — e teve vontade de voltar e confrontar o técnico, mas se conteve, pensando no que era melhor pro filho naquele momento.

Em casa, ela fez algo que eu acho fundamental: deu a ele a escolha. Disse que, se ele não quisesse continuar naquela competição, ela apoiaria e assumiria essa decisão. O filho, mesmo abalado, escolheu continuar — não pelo mesmo brilho no olhar de antes, mas por responsabilidade com o time, pra não deixar ninguém desfalcado.

E a frase dela que resume tudo, na minha opinião: "enquanto for seu sonho, eu vou sonhar com você. Quando você disser que não dá mais, tudo bem — eu estarei aqui."

Isso é presença. Isso é segurança. Isso é exatamente o que já discutimos sobre o papel de quem está ao lado da criança nos momentos difíceis — sem tirar a autonomia dele, sem fazer a escolha por ele, mas garantindo que ele soubesse que não estava sozinho, seja qual fosse a decisão.

Isso não é exclusivo do futebol

Vale reforçar: essa história não aconteceu no futebol — foi no basquete. E isso importa, porque mostra que o problema não é de uma modalidade específica, é de despreparo emocional generalizado entre quem treina crianças e adolescentes, em qualquer esporte de base. A responsabilidade de formar — não só tecnicamente, mas emocionalmente — é a mesma, seja em quadra, campo ou piscina.

Eu mesmo já vivi uma situação parecida com meu filho, no futebol — já contei essa história com detalhes em outro artigo. Guardadas as diferenças entre os dois casos, o fio condutor é o mesmo: adultos despreparados, em momentos de frustração, dizendo ou fazendo coisas que deixam marca em crianças que ainda nem sabem amarrar o próprio tênis direito.

O que fazer se isso acontecer com seu filho

Se você reconhece essa situação, ou algo parecido, alguns passos ajudam:

  • Acolha primeiro, investigue depois. No calor do momento, o mais importante é o estado emocional do seu filho, não resolver o problema com o técnico imediatamente.
  • Reforce o valor dele como pessoa, não só como atleta. A trajetória e o esforço dele não desaparecem por causa de uma frase infeliz de um adulto.
  • Dê autonomia na decisão, quando possível. Perguntar "você quer continuar?" em vez de decidir por ele reforça que a voz dele importa.
  • Guarde a raiva pra depois, e converse com o técnico com a cabeça fria. Uma conversa direta, sem o calor da emoção, tende a ser mais produtiva — e, se o padrão se repetir, considere seriamente mudar de ambiente.

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Perguntas frequentes

Como saber se uma fala do técnico foi só rigor técnico ou algo mais grave?

Rigor técnico foca no que fazer diferente da próxima vez. Fala destrutiva ataca o valor da pessoa, não o desempenho — se seu filho saiu de uma conversa se sentindo "menos", não só "corrigido", vale prestar atenção.

Devo confrontar o técnico na hora, na frente do meu filho?

Geralmente não é recomendado — o melhor é acolher o filho primeiro, e ter a conversa com o técnico depois, com a cabeça mais fria e em particular.

Meu filho quer continuar mesmo depois de uma situação assim — devo insistir pra ele parar?

Não necessariamente. Como no relato, dar autonomia pra ele decidir, com seu apoio garantido independente da escolha, costuma ser mais saudável do que impor uma decisão pelo lado dele.

Esse tipo de situação é comum no esporte de base?

Infelizmente, despreparo emocional entre treinadores de categorias de base ainda é comum, em várias modalidades — o que reforça a importância de as famílias ficarem atentas ao ambiente em que a criança está inserida.

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Pra fechar

Uma frase dita em segundos pode ficar anos na memória de uma criança — pra melhor ou pra pior. A história que compartilhei aqui é dolorosa, mas também mostra algo bonito: o jeito como aquela mãe conduziu o momento é, na minha opinião, um exemplo de como proteger e apoiar um filho sem tirar dele a própria voz. Que sirva de lembrete pra todos nós, pais e técnicos: as palavras que usamos com uma criança pesam muito mais do que imaginamos.

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