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Futebol de Base

Pedri, o Pai e o Pênalti: Uma Lição Sobre Nunca Desistir do Seu Filho

Publicado em 21 de julho de 2026 · 8 min de leitura
Pai de jogador defendendo um pênalti simbólico em campo durante a comemoração de um título

Tem uma manhã que todo pai de atleta de base conhece bem. Chove, ou tá frio, ou é cedo demais, e o seu filho vira pra você e diz que não quer ir treinar hoje. Inventa alguma desculpa, reclama de dor em algum lugar que ontem não doía, ou simplesmente trava e fica emburrado no canto do quarto. E você, cansado também, tem que decidir: insiste ou deixa passar essa vez?

Eu queria te contar uma história que aconteceu na Copa do Mundo de 2026, do outro lado do mundo, que eu acho que fala direto com esse momento.

Um pênalti que não é sobre futebol

Na final da Copa do Mundo de 2026, a Espanha ganhou o título. Gol de Ferran Torres, título conquistado em cima da Argentina. No meio da festa — bandeira, confete, abraço de time inteiro — um dos jogadores mais decisivos da campanha, Pedri, se afastou de tudo aquilo por um instante. Foi procurar o pai dele, Fernando, no meio da multidão que tinha invadido o campo.

E ali, longe das câmeras principais, aconteceu uma cena pequena, quase despercebida no meio da euforia: Pedri colocou a bola no ponto de pênalti. O pai foi pra baliza, se preparando pra defender, como se aquilo fosse o jogo mais importante da vida dele. E, antes de bater, o Pedri disse, meio sorrindo pra câmera: "ele vai defender — ele sempre defende".

Bateu. O pai, mais uma vez, adivinhou o canto certo e defendeu.

Isso não é a primeira vez. Essa cena se repete depois de cada título importante que o Pedri conquista — aconteceu depois da LaLiga, e agora de novo depois da Copa do Mundo. Virou tradição. E o motivo por trás disso é o que eu quero que você leve desse artigo.

O sonho que o pai não pôde viver

Fernando, pai do Pedri, também jogava bola. Era goleiro — chegou perto, muito perto, de disputar futebol semiprofissional, lá na Terceira Divisão espanhola. Só que a vida não deixou esse sonho seguir adiante: o próprio pai de Fernando — avô do Pedri — faleceu ainda jovem, e Fernando precisou largar o futebol pra assumir o sustento da família.

Ele nunca chegou a ser goleiro profissional. Esse sonho ficou pra trás, num momento em que ele precisou escolher entre o que queria pra ele mesmo e o que a família precisava dele.

Anos depois, Fernando criou o filho numa cidade pequena, Tegueste, nas Ilhas Canárias — bem longe dos grandes centros do futebol espanhol. E, do jeito que só um pai que já sonhou grande consegue, ele passou a apoiar o filho de um jeito completo: levando pro treino, assistindo cada jogo, incentivando cada passo. Fundou até um grupo de torcedores do Barcelona na cidade, contagiando a família inteira com aquela paixão.

E foi assim, ano após ano, treino após treino, que aquele garoto de Tegueste virou um dos melhores meio-campistas do mundo.

O pênalti é uma forma de dizer "obrigado"

Agora olha bem pra essa tradição com outros olhos: toda vez que o Pedri levanta uma taça, ele não corre pra comemorar sozinho, nem fica só entre os companheiros de time. Ele procura o pai — o homem que abriu mão do próprio sonho de ser goleiro — e devolve a ele, por alguns segundos, aquele papel. Coloca o pai na baliza de novo. Deixa ele, mais uma vez, ser o goleiro que quase foi.

Não é sobre o gol ou a defesa. É sobre dizer, sem precisar de palavras: "Eu cheguei até aqui porque você esteve comigo desde o início."

E aqui está o que eu acho mais bonito nessa história: ninguém sabia, lá atrás, que aquelas tardes de treino no quintal, aquelas idas e vindas pro campo em Tegueste, aquela insistência de um pai levando o filho pra treinar mesmo nos dias difíceis, iam resultar nisso — num pênalti simbólico, repetido depois de cada título, décadas depois. Naquela época, era só rotina. Era só um pai fazendo o que muitos pais fazem: aparecendo, dia após dia, sem saber exatamente aonde aquilo ia dar.

E é aí que eu quero voltar pra sua manhã difícil

Porque é exatamente isso que você está vivendo agora, com seu filho na escolinha, no clube, nos primeiros torneios. Você não sabe — ninguém sabe — se esses anos de levar, buscar, incentivar, insistir vão resultar numa carreira grande, numa Copa do Mundo, num pênalti emocionante daqui a vinte anos. Provavelmente não vão, e tudo bem — a matemática dessa profissão é dura, a gente já falou sobre isso com números reais em outro artigo.

Mas isso não é o que importa agora. O que importa é que o caráter do seu filho está sendo forjado exatamente nesses dias difíceis — nos dias de chuva, nos dias de preguiça, nos dias em que ele diz que não quer ir. E, olha, o seu caráter também está sendo forjado junto, como pai: na resiliência de insistir com carinho, de não deixar passar, de mostrar que compromisso é assim mesmo — nem sempre com vontade, mas sempre com presença.

Ninguém constrói disciplina, resiliência e caráter só nos dias fáceis. Se constrói exatamente nesses dias em que dá vontade de desistir — tanto pra ele quanto pra você.

Insistir não é sobre o resultado — é sobre o que você está construindo

Vale reforçar: insistir pra que seu filho vá treinar, mesmo com a preguiça ou a birra do dia, não é sobre fazer dele um craque. É sobre ensinar, na prática, que compromisso se honra mesmo quando não dá vontade. É sobre mostrar que você está ali, seguro, presente, independente do resultado do próximo jogo.

Essa segurança que um pai transmite — de "eu vou continuar te levando, continuar te apoiando, continuar acreditando em você, mesmo nos dias ruins" — é provavelmente o alicerce mais importante de toda essa jornada. Mais até do que qualquer treino técnico. Já falamos sobre como equilibrar incentivo sem virar pressão excessiva neste outro artigo — mas o ponto central é sempre o mesmo: presença consistente é o que sustenta tudo.

Fernando não sabia, quando levava o filho pequeno pro treino em Tegueste, que 20 anos depois ia reviver o sonho de ser goleiro por alguns segundos, num campo cheio de gente comemorando um título mundial. Ele só sabia que precisava estar ali. Fazer o trajeto. Segurar a bola. Aparecer de novo no dia seguinte.

É isso que você está fazendo agora, mesmo nos dias em que parece pouco, mesmo nos dias em que seu filho reclama e você se pergunta se vale a pena insistir. Vale.

Eu vivo isso também, com meu filho

Vou ser sincero com você: eu passo por essa dúvida na prática, não é teoria. Meu filho tem 8 anos, e tem dias que ele quer ir treinar, outros dias não quer de jeito nenhum. E, mesmo sabendo que é só uma criança de 8 anos sendo criança, na minha cabeça bate a mesma pergunta, sempre: será que eu devo insistir mais? Será que, se eu aceitar o "não quero ir hoje" com facilidade demais, eu tô deixando ele mole? Será que ele realmente gosta de futebol, ou eu deveria tá procurando outra coisa, algo que ele tenha mais paixão de verdade?

Eu não tenho uma resposta perfeita pra essas perguntas — acho que nenhum pai tem. Mas eu escolhi passar por cima dessa dúvida e focar no que eu sei que importa, independente da resposta: ensinar ele a ter responsabilidade com os compromissos que assume, com o horário certo, com o esforço necessário pra realmente avançar em qualquer coisa que ele decida seguir na vida.

Teve uma fase em que ele jogou num time que, sinceramente, vivia desorganizado. Não tinha treino de verdade entre os meninos, chegava atleta novo a cada jogo, e o pior: a gente só conseguia o número exato de jogadores em campo — sem nenhum reserva no banco. Contra times que apareciam com comissão técnica completa (técnico, dois auxiliares, elenco cheio, banco lotado de reserva), os resultados obviamente não vinham fácil. Algumas derrotas foram bem frustrantes.

Ele começou a não querer mais ir. Ninguém gosta de perder direto, ainda mais com 8 anos. Foi aí que sentei com ele e expliquei uma coisa que eu acho que todo pai devia dizer nesse momento: se ele faltasse, o time jogaria com um a menos. Quisesse ou não, ele fazia parte daquele grupo — e o compromisso dele não era só com ele mesmo, era com os companheiros de time também. Falei: "vamos terminar esse ciclo direito. Com derrota ou com vitória, vamos ser grandes."

O último jogo daquela fase eu não esqueço. Time contado, sem ninguém no banco, cheio de menino que mal se conhecia de outros jogos. E mesmo assim, jogaram muito. Abriram o placar, seguraram a frente boa parte do jogo, o adversário buscou o empate e chegamos a 3x3 já nos minutos finais — e, no fim, nos últimos instantes mesmo, viramos: 4x3.

Eu não lembro de ter pulado tanto por um resultado de categoria de base na minha vida. Mas o que mais me emocionou não foi só o placar — foi saber que aquilo validava exatamente o que eu vinha tentando ensinar esse tempo todo: que honrar um compromisso, mesmo quando é difícil, mesmo perdendo, mesmo com vontade de desistir, vale a pena. Às vezes o resultado prova isso rapidinho, como naquele jogo. Às vezes só vai provar anos depois, como aconteceu com o Fernando e o Pedri. De um jeito ou de outro, a lição já valia, mesmo antes daquele 4x3.

Guarde esses dias — mesmo os difíceis

Se tem um convite que eu deixo depois dessa história, é esse: não deixe esses dias se perderem só na memória. Os dias bons, claro — mas também os dias difíceis, os dias de insistência, os dias em que você teve que ser a força que faltava naquela manhã. Um dia, quando seu filho for mais velho, essas memórias — não só os troféus — vão ser o que mais importa pra ele.

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Pra fechar

Você provavelmente nunca vai bater um pênalti simbólico contra o seu filho no meio de um campo lotado depois de uma final de Copa do Mundo. Mas o que você está construindo agora — a insistência gentil, a presença nos dias difíceis, a segurança de saber que o pai está ali, aconteça o que acontecer — é exatamente do mesmo material que formou o pai do Pedri, e, através dele, o próprio Pedri.

Da próxima vez que seu filho disser que não quer ir treinar, lembra dessa história. Não é sobre o resultado de hoje. É sobre o tipo de homem — e o tipo de filho — que vocês dois estão se tornando juntos, um dia de treino de cada vez.

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